Meu travesseiro tem muita estória para contar. Ele guarda inúmeros segredos.

Ele escutou várias promessas de coisas que não fiz até hoje com 61 anos de idade em busca da cura. Por exemplo, quando à noite, eu angustiado, prometia que não ia mais beber, que no dia seguinte seria diferente, acontecesse o que acontecesse, não iria beber. E ele quieto ouvia; mas na noite seguinte, eu novamente deitava, colocava minha cabeça sobre ele, e me lamentava outra vez, pois havia bebido. Tudo que eu não queria ouvir, naquela hora era aquela frase de repreensão: eu não disse? Você não cumpriu de novo a sua promessa. Mas ele sempre quieto. Acho até porque ele acreditava em minha promessa. Ele sabia que no íntimo eu queria mesmo parar de beber, mas não conseguia. Então ele se calava, e de novo ouvia outra promessa igual, ouvia com fé, acreditando, talvez até pensando: quem sabe hoje se concretize.

Ele conhece todos os defeitos de meus parentes, de meus amigos, de meus chefes. Já ouviu enúmeras vezes eu discorrer de seus defeitos, até os imaginários discursos proferidos a eles sobre seus defeitos, de como deveriam agir, de como deveriam ser. Teve noite que repetia várias vezes o mesmo discurso, cansativamente, como se quisesse decorá-los até parece que eu teria coragem de dizer tudo aquilo que estava pensando. Meu travesseiro deve ter aprendido muito em como se exercita o rancor, a vingança, ainda bem que não pratica, como eu tanto praticava. Acho que ele é um sábio, pois os sábios aprendem muito, mas só praticam aquilo que pode gerar crescimento.

Várias manhãs eu o agarrava, espremia contra o peito, na tentativa de ele poder acalmar meus tremores, fazendo novas promessas, pedindo a ele para me acalmar, e ele sempre ali, quieto, se deixando amassar, como um cúmplice, mas solidário. Ah se ele falasse: tá vendo? Ta vendo no que dá você beber desse jeito? Acho que eu o teria estampado na parede! Mas não, ele sempre quieto, solidário.

Ele também ouviu planos mirabolantes de como ter sucesso na vida, de como fazer para ser melhor que os outros. Eu os discorria detalhe por detalhe, repetia, acho até que tentava o convencer, como se talvez nem eu mesmo acreditasse naquilo. E ele paciente ouvia, fazia que entendia , mas não lembro de ter me entusiasmado a prosseguir. Era um sábio, sábio calado e paciente, tão paciente que pôde esperar os dias de calmaria.

Até hoje ele desfruta comigo as noites de insônia, recebe minha cabeça ao fim de um dia, ainda embreagado, e divide comigo momentos que só Deus, ele e eu sabemos, tem noites que quando vou deitar que estou sóbrio ai fico a conversar com meu travesseiro onde eu poderia ter agido melhor, o que fazer amanhã para ser mais humano que hoje, providenciando novas ações de correção. Hoje ele sorri para mim e diz durma em paz e que amanhã quando chegar a noite e for deitar venha sóbrio mais um dia, isso que espero sempre.

TRATAMENTO DO ALCOOLISMO

INDICADO PELO NÍVEL DE GRAVIDADE

O diagnóstico da dependência alcoólica considera diferentes níveis de gravidade.

E para cada situação é recomendada uma modalidade diferente de assistência.

TRATAMENTO AMBULATORIAL

Quando a intensidade da dependência alcoólica é identificada como leve a moderada, as chances são maiores para a reabilitação sem precisar internar o alcoolista.

O tratamento do alcoolismo nesta fase evita o agravamento da situação de saúde do paciente e os danos e perdas para a sua família.

Os vínculos sociais e familiares, atividades como trabalho e estudos são fatores positivos que contribuem na abordagem do tratamento.

A flexibilidade de dias e horários permite ao paciente continuar sua rotina normalmente, e melhor, sem se afastar da sua família.

Outro benefício desta modalidade é o baixo custo em relação às consultas avulsas e ao tratamento em regime de internação.

TRATAMENTO COM INTERNAÇÃO

Há casos em que o alcoolismo passa a interferir com mais intensidade no cotidiano. Entretanto, apesar de beber muito, a pessoa reconhece que precisa de ajuda profissional e está disposta ao tratamento, ainda que incentivada pela família e amigos próximos.

Este é o caso da dependência de álcool em nível moderado, sendo a indicação um tratamento com internação em clínica de recuperação.

TRATAMENTO GRAVE

Quando há maior comprometimento da saúde física e o paciente rejeita qualquer ajuda profissional é classificado como nível grave. Isso porque o dependente alcoólico não tem condições de decidir por si próprio e os riscos de vida são altos.

A indicação médica é a internação involuntária em clínica especializada. Quando a possibilidade de recuperação prevalece aos riscos do desiquilíbrio psíquico ou até a morte.

A INTERNAÇÃO INVOLUNTÁRIA

A internação involuntária é a alternativa legal (lei nº 10.216, 16 de junho 2001), e mais tranquila do que se pode imaginar. Além disso, a maioria absoluta dos pacientes adere ao tratamento após a abordagem terapêutica e a estabilização do quadro clínico.

Afinal quem ama, nunca desiste!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Alcoolismo x Terapia Nutricional

   

As hepatopatias, decorrentes do uso contínuo de álcool, vão desde ao "fígado gorduroso alcoólico" até hepatite aguda e cirrose. Para o tratamento desses males é preciso que, além da interrupção do consumo alcóolico, se realize uma dieta específica.
É o que comprova um artigo científico de revisão, publicado na última edição da revista Nutrition in Clinical Practice (Volume 21, número 3). Os pesquisadores afirmam que uma melhoria do suporte nutricional pode contribuir para o restabelecimento das funções hepáticas.
Os benefícios são sentidos nas respostas ao tratamento, no alívio dos sintomas e, por consequência, na qualidade de vida dessas pessoas, já que a doença alcoólica do fígado tem um efeito profundo na ingestão de nutrientes, no status nutricional e no metabolismo, contribuindo para uma maior ocorrência de má-nutrição desses indivíduos.

Principais carências nutricionais relacionadas ao alcoolismo
Dificilmente, pessoas que abusam ou são dependentes alcoólicos conseguem manter um bom padrão nutricional. “A desnutrição relacionada ao abuso do álcool ocorre por várias causas: ingestão insuficiente de alimentos, dificuldade de absorver os alimentos ingeridos, perda de proteínas pelo intestino e redução da síntese de proteínas pelo fígado. Dentre todas essas alterações, as dificuldades na ingestão adequada de alimentos é um dos mais importantes fatores que levam à desnutrição”, explica Ellen Paiva.
Nesses pacientes, a presença de etanol no organismo está relacionada à falta de apetite e isso ocorre por vários motivos. Um deles é o fato de que o álcool não é apenas uma substância psicotrópica, é também fonte calórica – 1g de álcool fornece 7 calorias – chegando a suprir, em grandes ingestões, 50% das necessidades calóricas diárias, sem nenhum traço de nutrientes em sua formulação. Além disso, as queixas de falta de apetite e náuseas ocorrem, respectivamente, em 87% e 55% desses pacientes. “Algumas deficiências nutricionais são particularmente preocupantes no paciente que abusa do álcool: a desnutrição protéica, as deficiências de vitaminas A, C, D e do complexo B, magnésio e zinco”.

A desnutrição protéica é uma característica importante do consumo crônico e inadequado do álcool. Na maioria das vezes, há perda de peso, com redução da massa muscular, alterações de pele e cabelos que sugerem redução do aporte protéico. “Esses efeitos, assim como os demais déficits nutricionais relacionados ao alcoolismo, são mais graves, quanto maiores forem os níveis de ingestão do álcool e pior o padrão alimentar. A orientação nutricional para esses pacientes baseia-se em uma dieta balanceada e não há indicação de suplementos protéicos ou dieta com maiores quantidades de proteínas do que as recomendações normais”.

Deficiência das vitaminas do Complexo B 
(1) Tiamina – sua deficiência é muito comum em alcoolistas e pode causar complicações graves como doença neurológica incapacitante, cardiopatia grave e doença dos nervos periféricos, com formigamentos e dores em queimação, fraqueza das extremidades inferiores e até perda da sensibilidade das pernas. “A tiamina deve ser administrada a todos alcoolistas por várias razões: a sua deficiência é muito comum nesses pacientes, o diagnóstico laboratorial é difícil de ser realizado, a suplementação da vitamina é fácil e segura e, muitas vezes, é preciso reverter a doença neurológica em fase inicial”.

(2) Niacina – a carência dessa vitamina é a responsável pelas lesões de pele e de mucosas tão comuns em alcoolistas. A pele sofre pigmentação e descamação das lesões, principalmente nas áreas expostas ao sol. A deficiência de niacina também pode causar quadros de demência. “A abstinência do álcool e uma alimentação equilibrada são suficientes para a recuperação rápida das manifestações dessa deficiência”.

(3) Ácido Fólico - a deficiência dessa vitamina só aparece nos casos de alto consumo alcoólico e deficiente ingestão do ácido fólico. “A manifestação mais comum é a anemia e o tratamento é feito através de uma dieta rica nesse nutriente”.

 deficiência de vitamina A aparentemente é mais acentuada no fígado de alcoolistas crônicos e nesses casos parece não depender da ingestão da mesma. Muitos estudos científicos relacionam esse achado à maior propensão ao câncer de fígado relacionado à cirrose. “Aqui, a terapia nutricional é muito importante, porque apesar da deficiência de vitamina A ser deletéria à saúde do fígado, os suplementos desta vitamina não são tolerados pelo paciente que faz uso de álcool. Este paciente se intoxica com pequenas doses de suplementos de vitamina A. A opção é a administração de alimentos ricos nessa vitamina, como os carotenóides encontrados nas frutas e hortaliças de cor amarelo-alaranjado: cenoura, moranga, abóbora madura, manga e mamão; ou verde escuro: mostarda, couve, agrião e almeirão”, diz a médica nutróloga. Outras fontes de vitamina A são fígado, ovos, leite integral e laticínios como manteiga, creme de leite e queijo. Qualquer tentativa de reposição de vitamina A deve ser feita diante da certeza da abstinência alcóólica. 

A deficiência de vitamina C é comum em pacientes alcoolistas, com ou sem doença do fígado. Sua suplementação diária pode ser necessária durante semanas ou meses para restaurar os níveis normais da vitamina. 

A deficiência de vitamina D no organismo leva a redução dos níveis de cálcio no esqueleto, osteoporose e maior suscetibilidade às fraturas. “Nesses casos, pode ser indicada a exposição ao sol e uma correção nutricional associada à abstinência do álcool”.

A deficiência de minerais como magnésio e zinco tem sido descrita, em alcoólatras, com manifestações de tremores, no caso do magnésio e cegueira noturna referente à falta de zinco. “A reposição vitamínica normalmente é alcançada através de fontes nutricionais, não sendo necessária a suplementação de nenhum deles, com exceção de casos muito graves, pacientes hospitalizados, quando são oferecidos esses minerais em soluções endovenosas”.

De uma maneira geral, a melhor proteção contra os efeitos lesivos do álcool ainda é uma boa nutrição. “Assim, a recomendação geral é a de uma dieta caloricamente adequada e que garanta as recomendações de vitaminas e minerais necessários. Enquanto isso for possível através de uma dieta balanceada, não há motivo para suplementações”, diz a diretora do Citen. Mas, à medida em que se agrava a desnutrição e há impossibilidade de se manter uma ingestão adequada de nutrientes, ou, quando se deterioram os mecanismos de absorção dos alimentos, “há necessidade de usarmos suplementos vitamínicos e, algumas vezes, a nutrição enteral ou parenteral”.

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